Os Xamãs e o Daime

2009-05-04 17:38

Gilberto Schoereder

Para alguns, elas são drogas como quaisquer outras. Para os especialistas, as plantas naturais são formas de se entrar em contato com outras dimensões e com os seres que nelas habitam, e vêm sendo utilizadas desde os primórdios da civilização humana.

    Segundo o escritor e filósofo Colin Wilson, autor de O Oculto, o homem primitivo acreditava de forma irrestrita em tudo o que o xamã lhe dizia quando se encontrava em estado de transe. Essa confiança é algo que, por muito tempo, esteve desaparecida na sociedade moderna, mas que começa a ganhar um novo espaço. As atividades xamânicas encontram-se novamente em evidência, apresentadas como uma espécie de resgate de um mundo esquecido diante das transformações tecnológicas da sociedade, especialmente a partir de meados do século XX.     Muitas vezes, essas atividades ressurgem apoiadas na utilização de certas drogas, chamadas por muitos pesquisadores de ‘drogas naturais’, como é o caso dos cogumelos contendo psilocibina, extensivamente pesquisados pelo antropólogo e etnofarmacologista Terence McKenna, recentemente falecido.
    Entre as ‘plantas sagradas’ mais conhecidas, está a ayahuasca (ou ahyauasca), que em alguns pontos da Amazônia é chamada de yagé, uma bebida obtida através da mistura da Banisteriopsis caapi e da Psicotrya viridis. Trata-se do mesmo Daime utilizado em cerimônias religiosas no Brasil, um cipó cujo princípio ativo, segundo alguns pesquisadores, pode ser encontrado em formas variadas desde o sul do Chile até o norte dos EUA.
    Alex Polari, um dos maiores pesquisadores da Doutrina do Santo Daime, afirma em seu livro, O Guia da Floresta, que todas as grandes civilizações pré-colombianas fizeram uso de plantas sagradas e que, inclusive, existem histórias a respeito de uma tradição profética entre os sacerdotes do Sol do Império Inca, que  teriam previsto o fim da civilização andina, obtendo uma visão após utilizarem a ayahuasca. Para o famoso etnólogo Ivan Lissner, a origem do Xamanismo e das visões proféticas — por meio do uso de plantas ou não —, está no Paleolítico, há 20 mil anos. Outros pesquisadores vão ainda mais longe, propondo uma antigüidade ainda maior para a atividade, muitas vezes com datas que atingem as centenas de milhares de anos.

Retomar o Contato
    A grande onda de Xamanismo que se espalha pelo mundo tem como meta principal a retomada do contato com a natureza, como explica Terence McKenna em suas obras. Para ele, há uma diferença fundamental entre as plantas naturais e as drogas modernas. As plantas teriam a capacidade de colocar a pessoa no centro de uma dimensão diferente, que coexiste com a nossa e na qual encontram-se entidades que estão tentando estabelecer uma comunicação com o nosso mundo. E é esse contato que fornece a qualidade mística e espiritual da experiência. Por outro lado, as demais drogas, elaboradas pelo homem através de processos químicos, portanto artificiais, transportam a pessoa para um espaço mental construído a partir de suas próprias experiências passadas ou de um futuro projetado, imaginado pela pessoa.
Mais do que isso, McKenna acreditava que as plantas poderiam propiciar esse contato com outra dimensão mais rapidamente do que outras técnicas conhecidas, como os exercícios de respiração, o ioga ou outras modalidades de meditação. E também não haveria a necessidade de ‘procurar respostas’, uma vez que elas estariam diretamente vinculadas à experiência em si.
    Polari explica que as plantas que hoje são chamadas enteógenas – ou seja, “capazes de suscitar a experiência de Deus em si mesmo” —, tiveram um impacto na estruturação da psique e da cultura humana muito maior do que podemos imaginar. McKenna pensa de forma semelhante, atribuindo ao uso dessas plantas grande parte do desenvolvimento social e cultural da humanidade. Os princípios psicoativos das plantas provocam o que hoje se costuma chamar de ‘expansão da consciência’, gerando experiências de êxtase místico, o que pode significar exatamente a ligação com as demais dimensões.
    Os adeptos do Santo Daime referem-se a esse contato religioso ou místico utilizando-se de símbolos pertencentes ao universo cristão. Outros grupos culturais que se utilizam da mesma planta referem-se a outros símbolos. Uns têm encontros com anjos; outros, com entidades das florestas. Magos e ocultistas referem-se a visões de elementais, espíritos superiores ou inferiores. Visões diferentes, mas, segundo os especialistas, fazem parte do mesmo fenômeno. O já citado Ivan Lissner dizia que os xamãs da Sibéria não podiam ser definidos exatamente como magos ou curandeiros, mas sim como uma espécie de médiuns, podendo inclusive reproduzir uma série de fenômenos já estudados pela parapsicologia. O antropólogo Mircea Eliade, um dos mais respeitados do mundo, confirmou ter presenciado alguns desses fenômenos, como a leitura de pensamento, clarividência e curas que pareciam milagrosas.
    A ciência não penetrou com maior interesse nesse campo, que está diretamente relacionado com o mundo dos fenômenos paranormais, o que não é de se estranhar se considerarmos o pouco entusiasmo com que os cientistas recebem as investigações científicas da Parapsicologia. No entanto, a possibilidade da existência de mundos paralelos, de dimensões que poderiam estar repletas de outros seres, não é apenas um tema da literatura de ficção científica, mas faz parte de algumas das mais avançadas considerações científicas ligadas à visão de um universo quântico.

O Daime
    Alheios a essas considerações de caráter técnico e científico, os adeptos do Santo Daime navegam em outras direções. A história do Daime começa no início do século XX, quando Raimundo Irineu Serra, posteriormente conhecido como Mestre Irineu, chegou à Amazônia e conheceu a ayahuasca. Segundo contam os adeptos do Daime, Mestre Irineu teria sido guiado através de sonhos e visões nos quais uma mulher com o nome de Clara se apresentava a ele. Raimundo Irineu chegou à Bolívia e ao Peru e conheceu a ayahuasca. A mulher que aparecia para ele apresentou-se como sendo Nossa Senhora da Conceição, a Rainha da Floresta, e instruiu-o a chamar o líquido de Santo Daime.
    O culto desenvolveu-se entre a população nativa da Amazônia, especialmente entre os chamados caboclos, miscigenação das levas de nordestinos que foram para lá trabalhar nos seringais e das populações indígenas locais. Dessa forma, a ayahuasca transformou-se numa doutrina com forte influência cristã e, segundo os adeptos do culto, ganhou também influências esotéricas, africanas e indígenas. Os textos do Daime afirmam que “a cristianização da ayahuasca é o fecho de um longo processo de resgate cultural e espiritual. A visão do mestre Irineu, o que o diferenciou de outros ayahuasqueros, foi sua fé de que ali dentro daquele cipó estava algo mais do que um alcalóide para fazer nossa cabeça ou mesmo uma simples força ou entidade divina, por melhor que ela fosse”.
    Os membros do Daime também entendem que é através dessa bebida que ocorreu uma síntese e união espiritual entre a doutrina dos conquistadores e o sacramento dos povos conquistados da América, além de restaurar a experiência visionária como o centro da revelação espiritual. Apesar de existirem muitas posições opostas a essa proposição, parece restar pouca ou nenhuma dúvida de que se trata, efetivamente, da restauração de uma prática ancestral, utilizada pelas mais variadas civilizações ao longo de milhares de anos. No entanto, no que diz respeito a uma possível síntese entre diferentes doutrinas, ou um resgate cultural e espiritual existente no processo de cristianização, a questão ganha contornos um tanto indistintos.

Diferentes Visões
    Muitas pessoas que se referem à utilização dos enteógenos, de bebidas provenientes do preparo de cipós, de cogumelos contendo psilocibina, cactos como o peiote ou outras drogas naturais entendem que elas podem, de fato, abrir a mente para experiências reveladoras de um novo universo, não necessariamente um universo interior, que só diz respeito ao usuário, mas a um mundo que está vivo numa dimensão paralela à nossa.
    Os poderes que os xamãs possuíram ao longo da história da humanidade foram percebidos por cientistas e pesquisadores experientes, e é um absurdo tentar ver essas práticas sob o ponto de vista moderno, como pretendem alguns, inclusive tentando considerar ilegal o uso das plantas nas cerimônias.
    A questão está exatamente em se estudar mais a fundo essas experiências e descobrir do que se trata realmente esse contato. Para muitos, pode ser uma experiência semelhante à que algumas pessoas têm durante a chamada viagem astral, ou podem estar em contato com uma dimensão semelhante à dimensão com a qual entram em contato as pessoas que recebem mensagens de espíritos dos mortos e de outros seres espirituais.
    O que existe de diferente nessas experiências parece estar mais na interpretação das mensagens do que no conteúdo das mesmas ou na forma como o contato ocorre. É difícil imaginar que um processo de cristianização, como citamos acima, seja um resgate cultural, mas antes uma assimilação, como já ocorreu tantas vezes na história do Cristianismo, talvez a religião que mais absorveu outras religiões, seitas e cultos ao longo da história.
    São conhecidos relatos de pessoas que não eram cristãs e que tomaram o Daime em grandes cidades do Brasil, e que não tiveram quaisquer visões relativas à religião, não viram anjos, não tiveram revelações, mas ainda assim se referiram à presença de seres desconhecidos, num ambiente que não podiam identificar como sendo a nossa dimensão. A experiência parece realmente estar diretamente ligada à bagagem cultural de cada pessoa, assim como ao ambiente cultural e à expectativa de quem experimenta a bebida.

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Como é feito o Daime
    As principais fases do preparo do Daime são a localização do cipó e da folha em meio à mata; a limpeza das folhas; a raspação e bateção do cipó; o cozimento e a apuração final do Santo Daime. Segundo os adeptos do culto, cada etapa envolve não apenas o trabalho físico, mas também o mental e espiritual. As mulheres cuidam das folhas e os homens preparam o cipó, com a atenção concentrada, uma vez que a bebida é considerada um sacramento, um veículo para a manifestação do Ser Divino.
    As vibrações provenientes da concentração no trabalho que está sendo realizado acabam, segundo eles, impregnando o líquido da mesma forma que os que o bebem são impregnados pelas vibrações do ser espiritual que habita os cipós da selva amazônica. Existem responsáveis por cada etapa, como os que guardam a perfeição na hora do cozimento, que deve atingir um ponto exato. O responsável pela apuração examina o líquido que se encontra nas panelas, cheirando a fumaça e apalpando o produto, até entender que está no ponto. Então, bate três vezes na borda da panela, fazendo a ‘chamada do Sol, da Lua e das estrelas’, que são as forças que estão influindo no Daime. Dois homens passam cordas nas alças da panela e levam-na a um local onde o líquido é escorrido ao som dos hinos, que são constantes nas celebrações do Santo Daime e também um dos pontos centrais do culto.
    A bebida obtida é utilizada em datas especiais do calendário do culto. Entre as principais festas religiosas, estão os Hinários — que são 12 horas seguidas de cânticos e danças em torno de uma estrela de seis pontas —, e os Feitios, justamente as festas de produção do Daime, que mobiliza toda a comunidade na elaboração da bebida que será consumida durante o ano.


Para Saber Mais:
O Guia da Floresta – Alex Polari (Ed. Nova Era)
O Livro das Mutações – Alex Polari (Ed. Nova Era)
Alucinações Reais – Terence McKenna (Ed. Nova Era)

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