O Buda da Compaixão
2009-04-17 18:11Gilberto Schoereder
O 14º Dalai Lama está diante de uma tarefa bem mais árdua que a de seus antecessores: líder religioso do Tibete vivendo no exílio e considerado um símbolo da paz, ele deve combater a ocupação chinesa de sua nação, que já vai completar 50 anos.
Prêmio Nobel da Paz em 1989, ele negociou a liberdade de seu povo diretamente com Mao Tsé-Tung quando tinha apenas 18 anos. Milhões ao redor do mundo são seus seguidores. Recentemente, falou para cerca de 200 mil pessoas no Central Park, em Nova York. Seu nome é Jetsun Jamphel Ngawang Lobsang Yeshe Tenzin Gyatso – Sua Santidade o Dalai Lama – embora os tibetanos prefiram chama-lo simplesmente de Kundun, a Presença.
Dono de um bom humor contagiante, o Dalai Lama tem como hobby consertar relógios, ainda que – como ele costuma dizer, rindo –, às vezes consegue fazer mais estragos do que consertos. Exalando uma simplicidade invejável, este Dalai Lama, o décimo-quarto em sua linhagem, foi incumbido de uma árdua missão: manter as esperanças de liberdade em seu povo e despertar o interesse dos governantes mundiais para a situação do Tibete, dominado pela China comunista desde 1950. Isso realmente não tem sido fácil, apesar das constantes denúncias comprovadas de violação dos direitos humanos e até mesmo genocídio naquele país. O próprio governo dos Estados Unidos considera o Tibete como território chinês, ignorando os relatos de perseguição política e religiosa, torturas, assassinatos e esterilização das mulheres.
Atualmente, Kundun vive no norte da Índia, em Dharamsala, uma pequena comunidade de refugiados no sopé do Himalaia, que ainda hoje continua recebendo quem consegue escapar do domínio chinês. É de lá que ele dirige seus esforços para tentar modificar a atitude das autoridades globais sobre a ocupação chinesa, que já apresentam sinais animadores. "Os próprios chineses", ele explica, "estão perdendo a autoconfiança. Pessoas que perdem sua autoconfiança e a razão passam a se apoiar unicamente no uso da força. Esse é um sinal de fraqueza".
O Novo Buda
O 14º Dalai Lama nasceu no dia 6 de julho de 1935, na pequena aldeia de Taktser, no Tibet, recebendo o nome de Lhamo Dhondrub. Com 2 anos de idade foi reconhecido como a reencarnação do 13º Dalai Lama e a encarnação de Avalokitesvara, o Buda da Compaixão. Todos os Dalai Lamas são tidos como manifestações misericordiosas do Buda, que escolheram reencarnar para servir a humanidade.
Quando o 13º Dalai Lama morreu, em 1933, seu corpo foi embalsamado e colocado no Palácio Potala, em Lhasa, olhando para o sul. Quando os monges foram rezar diante do corpo, ficaram surpresos ao perceber que a cabeça do Dalai Lama havia se movido sozinha e estava voltada para o nordeste. Um ano e meio depois, o então regente do Tibete liderou um grupo de monges numa viagem ao sul de Lhasa, até um lago sagrado conhecido por favorecer visões às pessoas. Os monges passaram vários dias jejuando e observando o lago, até que a tal visão surgiu. Tratava-se de um templo de três andares, com teto de ouro, tendo ao leste uma casa simples de camponeses com um beiral azul. As visões apontavam a direção nordeste, para onde partiram grupos de lamas e mestres, viajando durante meses, até que encontraram a casa exatamente como vislumbrada no lago.
A história do primeiro contato com o novo Dalai Lama é fantástica. Quem se aproximou da humilde residência foi o lama mais importante do grupo e amigo íntimo do 13º Dalai Lama. Ele estava vestido como mendigo e trazia ao pescoço, por baixo das vestes, o terço do Dalai Lama. Foi recebido à porta por uma mulher segurando uma criança e pediu comida. A criança, então, segurou a roupa do homem santo e perguntou, “Se lembra de mim?”. Em seguida, estendeu as mãos para o pescoço dele e puxou seu terço, dizendo, "Isto é meu. Por que está usando?" Emocionado, o lama abraçou a criança em que a mãe entendesse o que estava acontecendo.
Algumas semanas depois, os lamas retornaram à casa e colocaram uma série de objetos diante da criança, alguns pertencentes ao 13º Kundum e outras réplicas mais bem trabalhadas. Sem hesitar, a criança pegou exatamente os objetos do Dalai Lama, e todos tiveram a certeza de que o a grande alma havia renascido.
A tradição do budismo tibetano é importante nesse aspecto, mas hoje o Dalai Lama não dá muita importância às questões envolvendo vidas passadas. "Em poucas ocasiões", ele diz, "em sonhos, eu me lembro de minhas vidas anteriores, mas isso não é mistério. Eu me pergunto se vale a pena falar a respeito. Não sei. O passado já passou."
Líder Político
O 13º Dalai Lama assumiu suas responsabilidades plenas com 18 anos. O atual teve de assumir sua posição como chefe de estado e de governo ainda mais cedo. Ele foi entronizado em 1940 e iniciou sua educação com 6 anos. Seu tutor foi Ling Rinpoche, a quem Kundum considerou como melhor amigo e professor até sua morte, em 1983, em Dharamsala. A nova encarnação de Rinpoche também foi encontrada dois anos depois, a cerca de 800 metros do local onde ele morreu. "No começo, quando eu era muito pequeno", diz o Dalai Lama, "ele nunca sorria para mim. Eu tinha um pouco de medo. Agora compreendo que Ling fazia isso por ser um um bom professor. Ele era muito bondoso".
Os ensinamentos ao Dalai Lama foram ministrados dentro dos princípios do budismo tibetano, de forma bem rigorosa e envolvendo uma série de disciplinas como lógica, arte e cultura tibetanas, sânscrito, medicina, cosmologia, poesia, música, teatro e filosofia. Ele se submeteu aos exames orais para obter o título de Geshe Lharampa, o doutorado em filosofia budista, em 1959, aos 25 anos. O exame consistia em debater com os estudiosos mais capacitados diante de uma platéia de 20 mil monges
Seus últimos oito anos de estudos tiveram de ser divididos com a política, já que com apenas 16 anos o jovem Kundum foi obrigado a assumir plenamente suas funções ante a invasão chinesa. Já em 1954 ele encontrava-se com Mao Tsé-Tung, Chou En-Lai e Den Xiaoping, na China, com o objetivo de buscar uma solução para seu país. Segundo disse, suas esperanças começaram a desaparecer quando, ao final da reunião, Mao Tsé-Tung lhe disse que a religião era um veneno e muito nociva para o país. Naquele momento, o Dalai Lama se sentiu muito mal, percebendo que aquela pessoa era um 'destruidor do dharma, da religião'.
E efetivamente foi isso que ocorreu logo em seguida, com o exército de Mao agindo de forma cada vez mais repressora, prendendo e matando qualquer opositor às suas idéias e destruindo mais de 95% dos 6 mil mosteiros, templos e santuários do Tibete. Como esses lugares eram verdadeiros centros nevrálgicos na sociedade tibetana – funcionando como escolas, universidades, bibliotecas e hospitais – seu desaparecimento causou uma ruptura quase irreversível. Diz-se que cerca de 1 milhão e 200 mil pessoas morreram com a invasão chinesa, entre elas, a maior parte dos lamas, monges e professores do país.
Prêmio Nobel
Em 1960, sentindo que a situação havia atingido um ponto insustentável, o Dalai Lama e um grupo de seguidores fugiram do Tibete, encontrando refúgio na Índia. Nos primeiros anos de exílio ele apelou à Organização das Nações Unidas, procurando auxílio para a causa tibetana. A Assembléia Geral da ONU adotou resoluções que exigiam da China o respeito aos direitos humanos e ao desejo de autodeterminação dos tibetanos. em termos práticos, isso nada significou para o país, mas ele conseguiu manter intacta a cultura do Tibete e promover melhores condições de vida aos exilados. Foram criados fazendas e um sistema educacional tibetano, que ensina às crianças seu idioma, história e cultura. Além disso, surgiram cerca de 200 novos monastérios, preservando a essência do modo de vida tibetano.
Em 1963, o Dalai Lama promulgou uma constituição democrática baseada nos princípios budistas e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. suanintenção é que o documento sirva como base para a sociedade tibetana quando esta reconquistar sua liberdade. Em 1967, Sua Santidade iniciou uma série de viagens por diversos países em busca de auxílio. Sua primeira visita ao Ocidente ocorreu em 1973, quando teve oportunidade de encontrar-se com o Papa Paulo VI no Vaticano. Em 1980, 1982, 1986, 1988 e 1990 encontrou-se com o Papa João Paulo II, que buscava objetivos semelhantes aos seus. "Nós vivemos em um período de grande crise", disse o Lama, "um período de progresso mundial conturbado. Não é possível encontrar paz na alma sem segurança e harmonia entre os povos. Por esta razão eu vejo com fé e esperança o meu encontro com o Santo Padre, para ouvir suas sugestões, para que possamos trocar idéias e sentimentos e, com isso, abrir a porta da pacificação progressiva entre os povos."
Ele teve contato com representantes de todas as religiões, seguindo a crença de que é melhor existir uma variedade de religiões e filosofias do que uma única. "Isso é necessário", ele explica, "devido às diferentes disposições mentais de cada indivíduo. Cada religião tem idéias e técnicas únicas e aprender sobre elas só pode enriquecer a fé de cada pessoa."
Em 1987, em Washington, o Dalai Lama propôs um plano de paz para o Tibete baseado em cinco pontos básicos, que ele elaborou e apresentou no ano seguinte, na França. O plano envolvia a restauração dos direitos humanos fundamentais, das liberdades democráticas e o fim da produção de armas nucleares chinesas no Tibete – e jamais recebeu qualquer atenção por parte do governo chinês.
Foi essa atuação mundial que lhe deu o Prêmio Nobel da Paz, em 1989. Além do que – como o Comitê do Prêmio Nobel fez questão de realçar – sua luta pela libertação do Tibete sempre se baseou na busca de soluções pacíficas alicerçadas na tolerância e respeito mútuo. "O prêmio", disse ele na época, "reafirma nossa convicção de que usando a verdade, coragem e determinação como armas, o Tibete será libertado. Nossa luta deve continuar sem violência e livre de ódios.”
A postura do Lama torna-se ainda mais nítida quando ele fala sobre os chineses, a quem diz não odiar. "Às vezes, eu me irrito um pouco, mas não guardo sentimentos de ódio. No final das contas, sinto mais preocupação, mais compaixão por eles". Em suas preces diárias existem práticas de 'dar e receber'. Assim, através da imaginação, ele dá aos chineses seu pensamento positivo e, em troca, recebe a ignorância, o sofrimento, a raiva e o ódio deles. Essa é sua forma de ajudá-los.
Sua Santidade assume a condição de líder religioso e político do povo tibetano com a humildade que marca todas as suas atitudes. "Enquanto eu for um refugiado", ele diz, "vou continuar como líder. Quando recuperarmos nossa liberdade, nossos direitos, deixarei de ser líder e continuarei como um simples monge budista. Então, se possível, gostaria muito de permanecer num lugar isolado, mais dedicado à meditação. Este é meu desejo: preparar-me para os meus últimos dias".
Alguns poderiam dizer que esse é u projeto de vida pouco ousado para quem tenta, há 50 anos, sensibilizar o mundo para o que acontece no Tibete. Olhando com mais profundidade, porém, os mais sensíveis sabem que o grande Lama está dando mais uma mensagem para o mundo: a maior de todas as conquistas é o completo domínio do Eu Interno – na verdade, a única riqueza que alguém pode levar deste mundo.
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As Origens
A escola budista do Tibete, assim como da China, Mongólia, Coréia e Japão, surgiu de um movimento chamado mahayana, por volta do Século I a.C. – uma corrente progressista que se opunha à escola conservadora de nome Theravada ou Abhidharma. O budismo entrou no Tibete por volta do ano 640 e misturou-se a uma série de concepções religiosas já existentes na região, quando teve origem a noção de que o Buda encarna no Dalai Lama.
A escola mahayana não se prende ao significado literal das escrituras e tenta captar o significado e o espírito original do budismo. Segundo o Dalai Lama, o budismo tibetano se baseia no treinamento individual da mente, com o objetivo de compreender os níveis mais amplos da existência. Suas práticas diárias, por exemplo, consistem na preparação para a morte através da meditação, procurando separar o corpo da consciência. Ao atingir esse estágio mais profundo – que ele chama de ‘Clara Luz’ – é possível conseguir tal separação.
"Sempre considerei a felicidade ou a alegria como o propósito da vida", ele diz, "pois todo mundo quer felicidade. Contudo, sem tranqüilidade interior não é possível encontrar felicidade genuína e duradoura. Por isso, digo que o amor e a compaixão são a religião universal. Como nossa própria felicidade e alegria dependem dos outros, para obtê-las temos de cuidar das outras pessoas, servir. Ao gerar mais felicidade para os demais, você naturalmente recebe os benefícios."
Assim sendo, para um praticante do budismo tibetano o principal objetivo da vida é servir, ajudar ou, pelo menos, contribuir com alguma felicidade para os outros, inclusive os animais. É assim que a pessoa sente satisfação e paz interior.
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Os Mistérios da Capital
Lhasa é a capital do Tibete, onde se localiza o maravilhoso palácio Potala, construído pelo quinto Dalai Lama, Ngwang Lobsang Gyatso, que nasceu em 1617. Foi ele também quem convenceu o rei mongol e o imperador da China a reconhecer seu domínio sobre o Tibete. Era em Potala que residiam os Dalai Lamas, mas o governo chinês transformou o lugar em museu.
Diz-se que Nicholas Roerich – pintor russo, místico e explorador, falecido em 1947, que viajou pelo Tibete durante muitos anos – obteve uma pedra chamada Chintamani que antigas histórias da região diziam ter vindo de Sírius. Na década de 20 ele a teria devolvido aos seus verdadeiros donos e o 13º Dalai Lama também possuiria um fragmento.
Também existem algumas lendas a respeito do 13º Dalai Lama. Uma tradição citada pelo arqueólogo David Hatcher Childress diz que, depois dele, haveria apenas mais um Dalai Lama, que seria então o atual. Também se fala que, na verdade, ele não morreu, mas simplesmente teria entrado na rede de túneis que existem sob o palácio Potala. Essa lenda evidentemente é desfeita pelas narrativas dos monges que foram rezar diante do corpo do falecido Dalai Lama.
Também se fala que alguns documentos em sânscrito foram encontrados em Lhasa, que conteriam instruções para a construção de naves espaciais chamadas 'astras'. Os documentos também trariam referências a uma viagem entre a Terra e a Lua. Alguns dizem que eles foram enviados à Universidade de Chandigarth, na Índia, para ser estudados, e que os chineses possuem diversas partes desses manuscritos e os teriam incluído em suas pesquisas para a exploração espacial.
Outros afirmam que nas proximidades de Lhasa teria se estabelecido a Décima Terceira Escola, originária do continente desaparecido de Mu e formada por homens de grande sabedoria. Essa escola seria a Grande Fraternidade Branca, que montou uma biblioteca subterrânea conectada aos túneis sob o Potala. Seriam os mesmos túneis aos quais se refere o escritor Lobsang Rampa em seu livro O Terceiro Olho.
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