Devoção à Música

2009-05-06 16:05

Com uma vida inteira de dedicação e preparo, Meeta Ravindra é considerada uma especialista em entoar  mantras e cantar músicas devocionais indianas.

Gilberto Schoereder

    Meeta Ravindra diz que ainda está engatinhando neste mundo, sempre estudando e aprendendo, realizando um trabalho de formiga para que um dia possa estar à altura de seus mestres. Ela certamente tem razão quanto à necessidade de continuar sempre aprendendo, mas também é verdade que sua carreira musical é extensa e coroada de êxitos.
    Nascida na aldeia de Sewagram, Índia, Meeta começou sua caminhada no universo da música aos cinco anos. Nessa época, todos os dias ela ia ao ashram do Santo Vinoba Bhave acompanhada do avô e oferecia canções devocionais. A insistência do avô fez com que seu pai, o dr. Ashok Mahodaya, pedisse ao maestro e cantor clássico Balvantrao Kale que aceitasse a jovem como discípula. A partir de então foi uma disciplina diária de várias horas de estudo, até que aos 14 anos de idade, em 1968, ela ganhou o primeiro prêmio no concurso All India Musical Contest, na categoria música clássica devocional.
    A jovem artista continuou seu aprendizado com vários músicos de renome na Índia e, em 1972, se formou na Universidade de Nagpur como bacharel com distinção em música. Gravou seu primeiro disco em 1973, convidada pela HMV (His Master’s Voice), e em seguida casou-se e veio morar no Brasil. Desde então tem feito uma série de apresentações na televisão, em teatros e centros de cultura, sempre com o objetivo de promover a Índia no Brasil, eventualmente viajando a seu país para apresentações e gravação de novos álbuns voltados para a música devocional e os mantras. Aqui no Brasil já lançou vários CDs, como Bhaj Govindam, Mantras: Sons Cósmicos, Gayatri Mantra, Mantra dos Planetas, Melodia dos Chakras, Om Shiva, Om Shanti e Prashanti.
    Conversamos com Meeta Ravindra sobre seu trabalho e o sentido da música devocional e dos mantras.

Qual é a função da música para você?
    Antes de qualquer coisa, ela é alimento para a alma. Se a música faz bem para a alma, então a pessoa está bem, e se está bem, vai passar isso para o mundo. Não se faz música apenas para relaxar ou agradar. Quando você canta está automaticamente mexendo com as notas, que estão relacionadas aos chakras. Assim sendo, você está estimulando os chakras. É um trabalho meio lento, e no mundo atual as pessoas querem resultados instantâneos. O que eu adquiri é resultado de minhas práticas desde os cinco anos de idade, e só agora eu estou conseguindo obter os frutos. As pessoas têm de ter paciência quando começam um estudo espiritual, porque o resultado não é instantâneo.

Seus CDs só trazem mantras?
    Alguns têm mantras, outros também têm canções devocionais dirigidas às divindades. Nos mantras é exigida a pronúncia correta, porque o que faz efeito é a vibração sonora, e não a palavra em si. É preciso saber o som e o timbre correto. Os mantras são palavras mágicas, mas não um abracadabra. O mantra estabelece uma ponte entre a pessoa e o divino. Assim, quanto mais repetições você fizer corretamente, mais próxima fica a linha de chegada. Essa ponte deve ser cada vez mais forte, porque nós fazemos tantas coisas erradas que a ponte balança. As músicas devocionais são de domínio público, tradicionais e dirigidas às divindades, trazendo elogios.
    Essas músicas são escritas na língua nacional ou dialetos regionais, ao contrário dos mantras, que são em sânscrito. Antigamente, o sânscrito era uma língua falada no dia-a-dia, mas com o decorrer do tempo ficou só nos versos sagrados. As canções são mais populares do que os mantras, que ainda são cantados nos templos. Os mantras não são cantados em público porque, devido às energias existentes numa grande concentração, não se sabe que efeito teria um mantra entoado por milhares de pessoas. O mantra não vai sempre fazer bem; tem de ter pensamento positivo. Quando está entoando o mantra corretamente, você vai atingir o objetivo – e é preciso ter os objetivos definidos em sua cabeça, e o coração limpo. Isso geralmente não está acontecendo.
    Eu não sou muito fã de apresentações, porque não ficamos mais concentrados na imagem.

E, no caso de um CD, a pessoa pode meditar em casa.
    Isso. E tem muito pouco desse tipo de trabalho no mercado. No Mantras: Sons Cósmicos só tem a minha voz e um tambura, mas na Índia também estão apresentando os mantras com mais ritmo – as pessoas começam a dançar, não tem mais a introspecção. Agora, isso está se espalhando também aqui, no Ocidente. Eu sou contra.

Com relação ao ritmo, não acontece de um tablista entrar em êxtase ao acompanhar uma música?
    Nas canções devocionais, sim, é liberado. Mas nos mantras, se ele ficar meditando, não vai conseguir tocar. Quando se está cantando mantra, só é tocado um instrumento chamado tambura. Ele tem quatro cordas que já possuem as freqüências das outras três notas e é afinado dependendo da pessoa.
    A métrica do mantra, a divisão silábica, é importante, porque a respiração de cada mantra é diferente. Ele pode ter diferentes respirações, mas elas devem ser respeitadas. Não se pode cortar as palavras onde bem quiser, e também não pode ser muito lento. Seria como, em português, uma pessoa esticar uma palavra para caber dentro da melodia.

E às vezes a tônica cai na sílaba errada.
    Isso mesmo. No mantra, essas escalas métricas têm de ser corretas. Isso não costuma ser respeitado, por isso, há muita pronúncia errada. Não basta ir para a Índia, passar um mês e começar a cantar. É uma longa preparação. Já me falaram que os mantras em meus CDs podem ser alterados com a inclusão de baterias, etc, mas eu não vou mexer nas minhas músicas, porque as melodias eu faço. Duas ou trás canções são tradicionais, as outras eu componho.

Você ia gravar um CD que misturava música indiana com brasileira. Esse CD foi lançado?
    Já foi gravado, mas ainda não saiu. Queria lançar para mostrar a fusão cultural, e não apenas por questão comercial, mas ninguém apostou no projeto. Tem Asa Branca, tem música do Gilberto Gil, que inclusive ouviu, gostou e cedeu os direitos, mas aguardamos a oportunidade do trabalho ser visto pelo lado cultural e não apenas comercial. Também falaram que as músicas fogem do padrão das rádios, porque são muito longas e só algumas rádios iriam divulgar. Então, não tenho muita pressa. Precisaria trazer dois músicos da Índia e fazer uma produção grande para viajar pelo Brasil.
    Fiz algumas alterações nas canções. Por exemplo, em Asa Branca, eu canto a música como ela é, mas numa estrofe mudei para a escala da chuva, já que na letra existe a esperança de chuva.

Existe uma escala musical de chuva?
    Existe. Na música indiana existem mais de 800 escalas, e cada uma é diferente. Minhas músicas são baseadas nas escalas e eu mantive a tradição. Tem escala de chuva, de calor, de frio. E tem escalas de determinados horários – por exemplo, a escala da manhã não pode ser cantada à noite, porque não vai fazer efeito. Ela gera um certo tipo de efeito nas glândulas que vai fazer bem à pessoa. Num festival de música que vai das 10 até as 4 da manhã, os cantores elaboram seu repertório dependendo do horário em que irão se apresentar. Se, por exemplo, uma pessoa estava escalada para cantar às 10h e o horário é alterado para as três da madrugada, ela tem tanto preparo que vai mudar na hora. Esse preparo, o Ocidente não tem. Agora que estão descobrindo, mas o estudo é essencial. Primeiro, é preciso educar a si mesmo, para saber as nuances da música e das escalas. Dependendo da dedicação, a pessoa pode estar pronta antes de cinco ou seis anos, mas os mestres não dão essa liberdade, porque a fama pode atrapalhar o desempenho. A pessoa pode cair para o lado material, e o espiritual vai por água abaixo.

Para Saber Mais:
http://members.tripod.com/~meeta_ravindra/index.html

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