A Reconstrução da Humanidade
2009-05-05 19:30O cientista Lee Silver apresenta uma série de idéias sobre o futuro da humanidade a partir do desenvolvimento da engenharia genética. Autor do livro De Volta ao Éden, ele conversou com a Sexto Sentido sobre o assunto que pode mudar o rumo da vida no planeta.
Gilberto Schoereder
Parece inevitável que uma das maiores controvérsias neste início de século ocorrerá em torno das possíveis aplicações da engenharia genética, o que inclui tanto alterações na estrutura dos seres humanos quanto as técnicas de clonagem. Na verdade, a discussão sobre clonagem humana já começou, e está bem quente com a afirmativa da Religião Raeliana Internacional de que a clonagem será realizada, mesmo contra a determinação da justiça em vários países – e eles estão procurando soluções legais para isso.
É difícil negar que qualquer tecnologia desenvolvida a partir da pesquisa científica pode ter seu lado positivo e negativo, dependendo da aplicação. Muito já se comentou sobre a energia nuclear e os perigos que e;a representa – para não falar de seu uso como arma militar de imenso poder destrutivo –, mas também se sabe que era um conhecimento impossível de ser detido. Os cientistas estavam na pista de alguma coisa e iriam chegar aos resultados mais cedo ou mais tarde. Esse avanço é tido como inevitável.
Lee M. Silver é otimista com relação aos frutos da engenharia genética. Ele é professor dos departamentos de biologia molecular, ecologia e biologia evolutiva da Universidade de Princeton, além de pesquisador nas áreas de genética, evolução, reprodução e biologia do desenvolvimento, com foco em genética comportamental. Como um dos grandes nomes na área no momento, suas opiniões certamente não encontram eco em todos os cientistas e muito menos nos críticos mais ferrenhos dos avanços da engenharia genética – afinal, ele entende que o mercado e a natureza humana podem e devem determinar o uso das tecnologias a serem desenvolvidas.
No prólogo de seu livro De Volta ao Éden – que discute quase todos os itens importantes relativos ao tema – ele imagina como será a engenharia genética e sua aplicação futura, sempre pulando alguns anos, partindo de 2010 e chegando a 2350. A possibilidade de escolher o sexo dos filhos é, talvez, o mais próximo avanço e um dos menos significativos, acreditando-se no desenvolvimento proposto por Silver. Será possível, por exemplo, evitar problemas congênitos nas crianças ou eliminar tendências como o alcoolismo. A manipulação genética pode até mesmo criar crianças já inoculadas contra inúmeras doenças.
Castas
Essa possibilidade de se criar seres humanos segundo padrões que forem considerados necessários leva muitos críticos a lembrar o sistema de castas descrito por Aldous Huxley no livro Admirável Mundo Novo (Brave New World, 1932), com seres construídos especialmente para cada função a ser exercida na sociedade. Assim, alguns possuiriam mais força, mas menos inteligência, uma vez que só teriam utilidade para serviços braçais ou mais pesados. Outros teriam mais inteligência para exercer cargos de chefia, e assim por diante. No entanto, muitos entendem que uma situação limite como essa só seria possível em uma sociedade que tivesse controle absoluto sobre os cidadãos, e qualquer especulação fora desse estado de coisas seria paranóia.
Da mesma forma, pode-se imaginar como seria a competição numa sociedade em que todos os cidadãos fossem igualmente perfeitos, tanto física quanto mentalmente – todos igualmente capazes de exercer determinada função. Uma uniformização levada a extremos pode criar situações estranhas, para não dizer insustentáveis.
Quando se refere ao possível desenvolvimento da engenharia genética no ano 2350, Lee Silver imagina que a polarização social que começou a se acentuar na década de 80 chegará a uma conclusão lógica – pelo menos nos EUA –, com todas as pessoas fazendo parte de uma das duas classes existentes: a dos naturais e a dos gene-enriquecidos, ou genricos. A partir daí, ele apresenta uma sociedade em que as fronteiras raciais e étnicas tradicionais simplesmente deixaram de existir devido à intensa miscigenação durante os últimos 300 anos. É uma situação mais ou menos oposta à que alguns estudiosos da questão imaginam: em vez de a engenharia genética ser empregada como forma de preservar a raça pura, acentuando o racismo e, por tabela, a xenofobia, ocorreria uma integração natural, o desenvolvimento de um processo já em andamento e inevitável.
Mas Silver também entende que uma outra diferença, e esta bem visível, será percebida nas pessoas desse suposto ou provável futuro: a diferença entre os que foram geneticamente aperfeiçoados – cerca de 10% da população – e os que não foram. Existiriam, inclusive, os genricos que já trariam alterações genéticas dos pais, e outros que apresentariam alterações novas. Poderão ser criadas atletas genricos, com capacidades específicas para cada esporte, podendo ser considerados verdadeiros super-humanos. Os cientistas também poderão ser genricos especiais, e quailquer outra categoria que se queira criar, estabelecendo uma distância cada vez maior entre os naturais e os chamados especiais.
O resultado final, na extrapolação de Lee Silver, é que chegará um ponto em que a segregação entre os dois tipos de seres humanos será total, criando “espécies inteiramente separadas, sem possibilidade de cruzamento e com tanto interesse amoroso uma pelo outra quanto um ser humano de nossos dias tem por um chimpanzé”.
O cientista entende que não serão os governos que controlarão o uso dessa tecnologia, mas os indivíduos que querem ajudar seus filhos, obtendo para eles as maiores vantagens possíveis – o que pode levar a um futuro ainda mais terrível do que imaginou Aldous Huxley em seu clássico. Existem ainda muitas dúvidas sobre a genética, mas de uma coisa Silver não tem dúvida: o uso crescente dessa tecnologia é inevitável.
É muito comum se ouvir dizer que o avanço científico não corresponde ao avanço em outras áreas — mais especificamente no campo da moral e ética. Diz-se, ainda, que no mundo da política, das altas finanças e de interesses comerciais internacionais, vale de tudo e tudo é possível. Diante desse quadro, como entender o futuro da engenharia genética e seu relacionamento com as estruturas de poder vigentes?
Sempre foi e será impossível prever que tipos de avanços irão ocorrer na ciência. Se um cientista pudesse prever qualquer descoberta, ele mesmo a realizaria e não esperaria ocorrer através de outro. Portanto, neste caso, a nova ciência sempre acontecerá antes que seja possível discutir as implicações de seu uso. Mas só porque algo é cientificamente possível não significa que tenha de ser realizado.
Na economia global de hoje, os governos realmente exercem pouco controle sobre a maior parte das tecnologias (a não ser aquelas que são utilizadas para a guerra). A mim me parece que as biotecnologias em particular serão ou não utilizadas em resposta à demanda das companhias ou indivíduos. A engenharia genética usada em animais e plantações irá aumentar a produtividade, e por isso será, em última instância, usada pelas empresas.
Existe um temor de que as técnicas da engenharia genética possam ser utilizadas como forma de poder. Vêem à mente algumas histórias de ficção científica e outras mais reais, como as tentativas nazistas na II Guerra Mundial. O senhor acha que essas possibilidades são reais? De que mecanismos a sociedade pode dispor para evitar que esse tipo de coisa aconteça? Temos tido conhecimento de uma série de notícias a respeito de controles e impedimentos para a realização de experiências de engenharia genética tidas como mais ‘radicais’. Mas também é costume dizer que, se puder ser feito, mais cedo ou mais tarde será feito.
Em muitos contos de ficção científica existe a idéia de que os governos assumirão controle sobre os genes e a reprodução humana para criar novas raças. Mas, na verdade, no mundo de hoje, as pessoas nos países industrializados controlam sua própria produção, e os governos quase não têm participação alguma sobre isso. O dilema ético não é o que a maioria das pessoas pensa. Pais irão querer usar a engenharia genética para melhorar seus filhos, não prejudicá-los. O problema é que as tecnologias genéticas mais vantajosas só estarão disponíveis para gente de grandes recursos, não para os pobres.
Que tipo de dificuldades o senhor imagina que a engenharia genética ainda terá de enfrentar, especialmente no que diz respeito às religiões? O senhor entende que uma parte da sociedade pode se mobilizar de forma mais agressiva contra esse avanço científico?
Muitas pessoas se opõem ao uso dessas tecnologias baseadas em princípios religiosos. Essa gente não usará a tecnologia e tentará impedir que outros a usem. Mas aqueles que têm recursos financeiros sempre conseguirão o que desejam. Hoje eles dão ambientes mais vantajosos a seus filhos, amanhã poderão dar vantagens genéticas.
Entende-se que a tecnologia que permitirá alterações genéticas em indivíduos será extremamente cara e, portanto, restrita a determinados países, ou a determinadas classes sociais. O senhor vê nisso alguma possibilidade de se criar um desequilíbrio ainda maior do que o que existe atualmente?
Não há dúvida de que a reprogenética aumentará a distância entre os ricos e pobres. Mas o custo da tecnologia provavelmente estará na faixa dos vinte mil dólares, que não é um absurdo – considerando-se esse gasto uma vez na vida – até para a classe média dos países mais ricos. Assim, acredito que o desequilíbrio maior se evidenciará entre os países mais ricos e os mais pobres.
O senhor é a favor de pesquisas com embriões humanos?
A experiência com embriões humanos em seus primeiros estágios, quando o embrião não passa de um aglomerado de células microscópicas, pode levar ao desenvolvimento de novas tecnologias para o cultivo de tecidos e órgãos capazes de substituir aqueles que estão danificados nas pessoas em estado desesperador. Eu não vejo problema com esse tipo de experimento, porque não acredito que um aglomerado de 60 células pode ser considerado um ser humano.
Com relação aos chamados alimentos transgênicos, alterados geneticamente, o que se sabe é que uma parte das pesquisas indica que as alterações nos alimentos provocarão alterações também nos animais e humanos, enquanto outra parte diz que não. Em que pé se encontra exatamente essa questão? O que o senhor pensa a respeito? A ciência já recebeu acusações, em outras épocas, de colocar em ação mecanismos ou descobertas que ainda não haviam sido devidamente testadas, como no caso da talidomida. Estamos diante de um caso semelhante?
Alimentos transgênicos podem trazer grandes vantagens às populações mais pobres do mundo. Pode ser produzido um arroz de forma a conter todas as vitaminas e nutrientes necessários para evitar doenças. Plantas podem ser cultivadas como vacinas naturais. Mas cada plantação transgênica, antes de ser usada, deverá ser testada individualmente para a identificação de possíveis efeitos prejudiciais à saúde humana ou meio-ambiente. Por enquanto, não foi detectado nenhum efeito negativo à saúde nos alimentos transgênicos.
Para Saber Mais:
De Volta ao Éden - Lee M. Silver (Editora Mercuryo)
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